Na Califórnia, a expansão das câmeras de vigilância da Flock Safety tem gerado intenso debate. A tecnologia, que registra placas e características de veículos, permite às forças de segurança pesquisar o trajeto desses automóveis, levantando questões sobre privacidade e vigilância em massa.

A Flock Safety, empresa por trás da tecnologia, afirma que suas câmeras auxiliam comunidades na prevenção de crimes, resposta a emergências e investigação de incidentes. No entanto, a capacidade dos equipamentos vai além da placa, catalogando detalhes como cor, marca, modelo e adesivos de para-choque.

Prós e contras da tecnologia

Defensores da Flock Safety argumentam que as mais de 120 mil câmeras instaladas nos Estados Unidos oferecem uma ferramenta poderosa para a polícia identificar suspeitos e solucionar crimes. O xerife do condado de Riverside, Chad Bianco, por exemplo, é um entusiasta da tecnologia. Em entrevista ao The Center Square, Bianco classificou a Flock como um “divisor de águas para as forças de segurança”, associando-a a uma queda de quase 25% nos furtos de veículos na Califórnia em 2025.

Por outro lado, críticos alertam que a interconexão de milhares de câmeras em uma rede pesquisável concede às forças de segurança uma capacidade sem precedentes de rastrear a movimentação das pessoas. Na Califórnia, a discussão se aprofunda em quem pode acessar essas informações, como elas são utilizadas e o que acontece quando as salvaguardas falham.

Preocupações com o compartilhamento de dados

Uma das maiores preocupações levantadas é a possibilidade de que os dados coletados por departamentos de polícia locais sejam acessados ou compartilhados com autoridades federais de imigração.

Essas inquietações levaram o Departamento de Polícia de Los Angeles a suspender sua relação com a Flock em julho, diante de questionamentos sobre a propriedade, armazenamento, proteção e compartilhamento dos dados. Em agosto, a prefeita de Los Angeles, Karen Bass, foi além, solicitando o rompimento completo dos laços com a empresa, alegando que a Flock havia “perdido a confiança dos moradores de Los Angeles”.

Seth Hall, líder de tecnologia da Coligação para o Uso Transparente e Responsável da Tecnologia de Vigilância de San Diego (TRUST SD), expressou ao The Daily Signal que as questões sobre o acesso governamental a dados de vigilância transcendem a fiscalização de imigração ou administrações presidenciais específicas. Para Hall, essa capacidade de vigilância em massa está sendo estruturada para uso a longo prazo.

Casos de uso indevido e erros

Em Costa Mesa, um ex-policial foi acusado de usar o sistema Flock da cidade para fins pessoais, incluindo o rastreamento de uma mulher com quem mantinha um relacionamento amoroso.

Mesmo quando as informações são capturadas com precisão, a interpretação delas pode ter sérias consequências. Em novembro de 2025, um homem de San Diego foi preso e passou quase um mês detido após a polícia usar uma imagem de câmera Flock para conectar o veículo em que ele estava a uma tentativa de roubo de carro. Segundo reportagens do Times of San Diego, a câmera fotografou o veículo a cerca de oito quilômetros de distância, 23 segundos após a tentativa de parada do suspeito. Apesar da distância e do tempo, um policial identificou o carro na imagem da Flock como o mesmo perseguido. As acusações contra o homem foram posteriormente retiradas.

Retenção de dados e o futuro da vigilância

A Flock Safety recomendou que as agências reduzam o período de retenção de dados de 30 para sete dias, após uma análise interna indicar que mais de 90% das buscas policiais sem uma placa completa ocorrem em até uma semana. Contudo, Hall ressalta que essa é apenas uma recomendação, e a decisão final sobre o tempo de retenção cabe às agências locais.

Hall alerta que as preocupações se estendem além das câmeras Flock, destacando que novos sistemas de vigilância estão em desenvolvimento enquanto as comunidades ainda lidam com as tecnologias existentes. Ele citou San Diego, onde a polícia propôs recentemente um programa de drones como primeiros socorristas, como exemplo. “A Flock é, na verdade, uma coisa do passado”, afirmou Hall, sugerindo que as comunidades devem se preparar para os próximos sistemas de vigilância que estão por vir.

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