A busca pelo “melhor livro brasileiro de ficção de todos os tempos” levou a redação da Gazeta do Povo a um exercício de memória e preferência pessoal, resultando em uma votação sem critérios predefinidos. Embora nomes como Machado de Assis e Jorge Amado tenham sido lembrados, uma obra se sobressaiu: “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, publicado em 1956.

A obra de Guimarães Rosa foi a mais citada pelos jornalistas. O romance é descrito como uma complexa narrativa que mistura história de jagunços, investigações sobre o bem e o mal, um romance de amor e uma profunda experimentação com a linguagem. Seu protagonista, Riobaldo, percorre mais de 600 páginas tentando compreender suas experiências, em meio a guerras, pactos, traições e sentimentos difíceis de expressar.

Para Omar Godoy, editor de Ideias da Gazeta do Povo, a aparente dificuldade inicial do livro se transforma em uma “musicalidade quase hipnótica” ao se entrar no ritmo da escrita de Guimarães Rosa. Godoy destaca que o sertão na obra não é apenas geográfico, mas um cenário para discutir o mal, a dúvida, a liberdade e o destino. Ele ressalta a intensidade de Riobaldo, um narrador que questiona e corrige o próprio raciocínio, e a capacidade do romance de unir filosofia, poesia e humanidade sem perder a força narrativa.

Paulo Polzonoff Jr., colunista que também indicou a obra, descreveu “Grande Sertão: Veredas” como uma “mistura perfeita de estilo inventivo, prosa cativadora e um subtexto extremamente profundo”, afirmando que “não tem igual”.

Outras obras de destaque

Além da obra de Guimarães Rosa, o regionalismo também marcou presença nas indicações, com “Capitães da Areia”, de Jorge Amado. Publicado em 1937, o livro narra a vida de um grupo de meninos de rua na Salvador da época, que, sem família ou perspectivas, roubam e desafiam a polícia. A obra explora a brutalidade, solidariedade, medo e sonhos desses personagens, como Pedro Bala, Professor e Sem-Pernas, questionando o papel da sociedade para com aqueles que abandonou.

Hermano Freitas, editor da Gazeta do Povo, lembrou que “Capitães da Areia” foi censurado na Era Vargas, com exemplares queimados em praça pública. Ele descreveu o livro como uma combinação de romance adolescente e denúncia social sobre o menor abandonado, um problema ainda atual. Freitas destacou que a obra não idealiza os personagens, mostrando suas ações e consequências sem julgamentos morais excessivos, e que “não tem o realismo mágico que muitos consideram irritante no restante da obra de Jorge Amado”.

A literatura contemporânea também foi representada com “Tudo é Rio”, da escritora mineira Carla Madeira, lançado em 2014. O romance aborda um triângulo de relações marcado por perdas e feridas, navegando por zonas desconfortáveis onde afeto e crueldade coexistem. A obra não busca respostas fáceis, mas convida o leitor a compreender personagens em um território moral complexo.

Bruno Maffi, editor da equipe de Brasil, avaliou que “Tudo é Rio” fala de emoções humanas profundas de forma “avassaladora”. Ele pontuou que a escrita da autora flui como o rio do título, imergindo o leitor em uma história intensa sobre amor, dor, ciúme e perdão, e que a obra proporciona uma experiência emocionante e marcante.

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