André Mendonça: De Servidor Discreto a Figura Central no STF
Conheça a trajetória de André Mendonça, do interior paulista ao Supremo Tribunal Federal, marcada por fé, desafios e ascensão no Judiciário.
Sumário do artigo
A trajetória de André Mendonça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), é marcada por um percurso que se iniciou de forma discreta, longe dos holofotes. Sua ascensão no Judiciário, que o levou a ser uma figura central em decisões relevantes para o país, foi construída por meio de dedicação a concursos públicos e atuação em escritórios de advocacia modestos.
Nascido em Santos, São Paulo, e atualmente com 53 anos, Mendonça é filho de Luiz Antonio e Maria Rosa. Sua infância foi vivida em diversas cidades paulistas, como São Vicente, Miracatu e Bauru, devido às transferências de seu pai, funcionário do extinto Banespa. A fé sempre esteve presente em sua vida, com o pai presbiteriano e a mãe católica, influenciando seu desejo inicial de seguir a carreira pastoral. Aos 16 anos, Mendonça considerou a possibilidade de ir para o seminário, mas foi incentivado pelos pais a concluir os estudos em Direito.
Formou-se pela Instituição Toledo de Ensino, em Bauru, em 1993. Após a faculdade e a perda do pai aos 19 anos, Mendonça tentou novamente trilhar o caminho religioso. No entanto, sua mãe o convenceu a buscar independência financeira. Ele, então, iniciou sua carreira na advocacia, prestou concursos para a Petrobras e, posteriormente, para a Advocacia-Geral da União (AGU). Ao ser aprovado na AGU, solicitou lotação em Londrina (PR) para conciliar a carreira pública com os estudos na Faculdade Teológica Sul Americana.
Ascensão na AGU e Reconhecimento
Em 2005, Mendonça foi convidado para uma missão temporária na Corregedoria-Geral da AGU, em Brasília, que se estendeu e o levou a se mudar para a capital federal em 2006. Como subcorregedor, destacou-se por seu perfil técnico ao lidar com processos disciplinares. Em 2008, foi convidado por Dias Toffoli, então advogado-geral da União, para dirigir o recém-criado Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa. Sua atuação à frente do departamento, que incluiu a restituição de R$ 169 milhões desviados de obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, rendeu-lhe o Prêmio Innovare em 2011, consolidando sua reputação e abrindo caminho para novas posições de liderança.
A Proximidade com Jair Bolsonaro
A aproximação entre André Mendonça e Jair Bolsonaro ocorreu no final de 2018, durante a transição de governo. Seu currículo acadêmico, que incluía formação em Direito e Teologia, especialização em Direito Público e um doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, com foco no combate à corrupção, chamou a atenção. Em novembro de 2018, Bolsonaro o convidou para chefiar a AGU, apelidando-o de “Mendonção”.
Durante sua gestão na AGU, Mendonça foi fundamental na defesa jurídica do governo, ganhando a confiança do então presidente. Em 2020, foi nomeado ministro da Justiça, cargo que ocupou até março de 2021, retornando depois à AGU até agosto do mesmo ano.
A Chegada ao STF
Em julho de 2021, Bolsonaro indicou André Mendonça para a vaga de Marco Aurélio Mello no STF, cumprindo a promessa de campanha de indicar um representante evangélico para a Corte. A indicação enfrentou resistência no Senado, e Mendonça aguardou quase cinco meses pela sabatina. Em 1º de dezembro de 2021, após mais de oito horas de questionamentos, defendeu o Estado laico e a não interferência de sua fé na função. Seu nome foi aprovado por 18 votos a 9 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e por 47 a 32 no plenário. Mendonça tomou posse em dezembro de 2021.
Desde então, sua atuação no STF tem sido marcada pela participação em julgamentos sobre liberdade de expressão, direitos individuais e os limites de atuação do próprio Supremo, incluindo embates com Alexandre de Moraes.
Controvérsias e Desafios
A trajetória de Mendonça também é pontuada por controvérsias. Em 2023, o Instituto Iter, criado por ele para oferecer cursos e pesquisas em Estado de Direito e governança, e administrado por sua esposa, Janey, fechou dezenas de contratos com órgãos públicos sem licitação, totalizando R$ 10,7 milhões, conforme levantamento do jornal Folha de S.Paulo. No início deste mês, em meio aos questionamentos, Mendonça e Janey deixaram a entidade e doaram suas cotas, visando evitar “ruídos”.
O Iter também foi mencionado no contexto do Banco Master. Em março de 2025, Daniel Vorcaro, do Banco Master, esteve na sede do instituto em São Paulo para uma reunião com Mendonça. Meses depois, mensagens em um celular de advogado mostraram uma foto dos dois em uma alfaiataria de luxo. Vorcaro afirmou ter levado o ministro para fazer um terno. Em resposta, o gabinete de Mendonça divulgou notas fiscais de R$ 26,4 mil, emitidas em nome de Janey, para demonstrar que as roupas foram pagas pela família.
Outro episódio envolveu sua relação com Nelson Wilians, colega de faculdade. Em junho de 2026, como relator de uma investigação sobre fraudes contra aposentados do INSS, Mendonça autorizou Wilians a usar um helicóptero apreendido pela Polícia Federal. Quinze dias depois, o advogado foi alvo da Operação Distrato, que investigava a venda de créditos tributários falsos. Mendonça, no entanto, manteve a proibição de venda ou transferência do helicóptero.
As polêmicas não impediram Mendonça de se tornar um dos protagonistas do STF. A partir de junho de 2024, ao assumir uma cadeira efetiva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no lugar de Alexandre de Moraes, os dois ministros começaram a se enfrentar com frequência. Com o surgimento do escândalo do Banco Master, a posição de Mendonça se intensificou, tornando-o uma figura central nos debates e decisões da Corte.
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