A fluência em inglês por parte dos presidentes brasileiros tem sido um ponto de debate, especialmente quando comparado a líderes de outros países sul-americanos. Desde a redemocratização, em 1985, Fernando Henrique Cardoso (FHC) é citado como o único a demonstrar notável facilidade com o idioma, com Fernando Collor também recebendo menção honrosa.

Registros históricos mostram que José Sarney, em 1986, fez um discurso em inglês na Casa Branca, durante o mandato de Ronald Reagan, mas iniciou sua fala mencionando o esforço que faria. Dilma Rousseff também costumava ler pronunciamentos em inglês, com dificuldades evidentes, e não realizava entrevistas ou conversas complexas no idioma. Recentemente, em Washington, Luiz Inácio Lula da Silva respondeu a um jornalista que iniciou uma pergunta em inglês: “Querer que eu entenda inglês é demais”. Jair Bolsonaro já admitiu publicamente na Avenida Paulista: “Eu não falo inglês, uma grande falha da minha formação”. Presidentes do passado, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, também não dominavam o inglês.

Cenário sul-americano e a situação da Apex

Em contraste com o Brasil, a proficiência em inglês é mais comum entre líderes de outras nações sul-americanas. No Peru, ex-presidentes como Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018) e Alejandro Toledo (2001-2006) – este último com mestrado e doutorado em Stanford – demonstravam fluência. No Equador, três líderes do Executivo no século 21, incluindo Guillermo Lasso (2021-2023) e o atual, Daniel Noboa (com cursos em Nova York e Harvard), dominam o idioma. Na Argentina, Mauricio Macri (2015-2019) discursou em inglês em diversas ocasiões devido à sua carreira internacional prévia. O uruguaio Luis Lacalle Pou (2020-2025) e os colombianos Juan Manuel Santos (2010-2018), Iván Duque (2018-2022) e Álvaro Uribe (2002-2010), estes com diplomas de universidades americanas, também falavam inglês quando necessário.

No Brasil, a ausência dessa tradição se estende a outras esferas. Jorge Viana, atual presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), alterou o estatuto do órgão para remover a exigência de fluência em inglês e, assim, poder assumir o cargo. Ele havia sido afastado anteriormente por não atender a esse pré-requisito e declarou publicamente que seu inglês “é de viagem” e “não existe essa necessidade”.

Impacto na diplomacia e o contexto brasileiro

A falta de proficiência em inglês entre líderes políticos brasileiros com expressão internacional pode limitar a capacidade de negociação direta com interlocutores estrangeiros, visto que o inglês é a língua comum da diplomacia. No entanto, o tema não parece ser tratado como prioritário, mesmo em períodos eleitorais.

Esse cenário reflete, em parte, a baixa proficiência da população brasileira em geral. O Brasil ocupa a 75ª posição entre 123 países no Índice de Proficiência em Inglês da empresa EF. Apenas cerca de 5% da população possui algum conhecimento do idioma, e somente 1% é considerado fluente. A situação entre os jovens apresenta indicadores apenas ligeiramente superiores, sugerindo um cenário estável e sem perspectivas de melhora significativa. Na América Latina, o Brasil está na 16ª posição entre 20 nações avaliadas.

Kyria Rebeca Finardi, presidente da Associação Internacional de Linguística Aplicada (AILA) e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aponta que o contexto regional influencia a percepção e o ensino do inglês no Brasil. “Somos um país lusófono cercado por países hispanofalantes, mas inseridos em uma economia global altamente mediada pelo inglês. Ou seja, estamos cercados geograficamente pelo espanhol e geopoliticamente pelo inglês. Isso gera uma tensão interessante entre integração regional e inserção internacional”, explica.

Historicamente, o ensino de inglês no Brasil tem sido desigual. Finardi observa que, por muito tempo, a escola pública tratou o idioma como disciplina periférica, focada em leitura instrumental, enquanto o setor privado o transformou em ferramenta estratégica para mobilidade social e internacionalização. Como resultado, o inglês se tornou um capital simbólico, abrindo portas para melhores empregos, intercâmbios, pós-graduação e participação em redes globais. Atualmente, o inglês é usado principalmente como língua franca entre falantes não nativos, funcionando como uma ferramenta global de mediação.

Inglês como ferramenta estratégica e sensibilidade cultural

Embora aproximadamente 400 milhões de pessoas no mundo sejam alfabetizadas em inglês, cerca de 1,5 bilhão o dominam, o que destaca sua relevância nas relações internacionais. Finardi considera a proficiência em inglês uma ferramenta estratégica importante em contextos de diplomacia econômica, negociações multilaterais e comunicação global. Contudo, ela ressalta que reduzir a competência de uma liderança internacional apenas à fluência no idioma pode obscurecer dimensões cruciais como capacidade diplomática, visão estratégica, habilidade de negociação e representação dos interesses nacionais.

A compreensão do contexto cultural também é vital. Fernando Henrique Cardoso, em 2001, durante uma viagem à Coreia do Sul, discursava em inglês para empresários quando foi alertado de que, no país, era costumeiro falar no idioma nativo e usar tradutores. Ele teria se desculpado com bom humor, imaginando que o inglês fosse mais familiar na Coreia, e continuou falando em inglês, mas de forma mais pausada para facilitar a tradução simultânea.

Benedito Caparros Junior, coordenador da pós-graduação em Relações Internacionais do Centro Universitário Internacional (Uninter), enfatiza que o inglês não é um diferencial, mas uma necessidade. Ele observa que os brasileiros tendem a consumir suas próprias produções culturais e não buscam os idiomas de países vizinhos ou o inglês. Em encontros oficiais de grande porte, é comum que cada país use seu próprio idioma como sinal de respeito à cultura e soberania, com intérpretes sendo fundamentais para discursos e formalização de acordos.

No entanto, Caparros Junior destaca que o domínio mínimo do inglês é útil em momentos informais de encontros internacionais. “Nem tudo o que é negociado e acordado entre chefes de Estado e suas delegações acontece apenas nos salões oficiais. O idioma trata de relações humanas. Cada língua tem sua intenção, sua tonalidade, sua contextualização. E conhecer o inglês ajuda a participar ativamente destes momentos sutis de construção de posicionamento”, conclui.

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