O coletivo “Judias e Judeus pela Democracia-SP (JJPD-SP)” reafirmou seu apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições de 2026, conforme manifestado em uma petição pública. O documento expressa preocupações com a democracia brasileira e os direitos humanos, mas não aborda o aumento do antissemitismo no país, tema que tem gerado discussões na comunidade judaica. Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que discursos do presidente e posicionamentos do Itamaraty contribuíram para um cenário de hostilidade contra judeus brasileiros, intensificado após os ataques do Hamas em Israel em 7 de outubro de 2023.

Declarações e ações controversas

Entre as ações e declarações do governo que geraram críticas por parte de líderes da comunidade judaica, destacam-se a comparação feita por Lula entre a ofensiva israelense na Faixa de Gaza e o Holocausto, a classificação de denúncias de antissemitismo como “vitimismo”, a falta de empenho na libertação do refém brasileiro Michel Nisembaum e a retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

A Confederação Israelita do Brasil (Conib), entidade representativa da comunidade judaica nacional, classificou as declarações de Lula como “antissemitas” em diversas ocasiões, afirmando que tais posturas “provocam um aumento imediato de ataques contra os judeus”. Dados da própria Conib indicam um crescimento de 350% nos casos de antissemitismo no Brasil entre 2022 e 2024, com um pico registrado após os ataques do Hamas em Israel. Uma pesquisa da instituição com 1.427 judeus brasileiros revelou que 86% consideram o antissemitismo um problema no país, e 22% já evitaram se identificar como judeus em alguma situação.

Perspectivas sobre o apoio a Lula

Questionado sobre o apoio de grupos judaicos a um presidente criticado por declarações consideradas antissemitas, o rabino e professor Micha Gamerman sugere que esses grupos podem ter a percepção de que, por o povo judeu ter sido historicamente oprimido, precisam apoiar outras minorias. Ele argumenta que, ao buscar essa analogia, acabam se aproximando de correntes hostis ao próprio povo judeu e aos valores progressistas que dizem defender.

Juliana Katz, graduada em filosofia e coordenadora de delegações do Ministério das Relações Exteriores de Israel, reconhece a sensibilidade de muitos judeus em relação à defesa de grupos vulneráveis. Contudo, ela enfatiza a importância de que coletivos que se apresentam como representantes da comunidade judaica reconheçam as críticas legítimas à política externa de Lula. Katz defende que, quando um político faz comparações com o Holocausto ou adota uma retórica considerada ofensiva, quem o apoia deve justificar essa decisão.

Pautas e posicionamentos do JJPD-SP

O coletivo Judias e Judeus pela Democracia-SP tem se posicionado sobre diversas pautas no debate público, como a defesa do Supremo Tribunal Federal (STF), a condenação de uma operação policial no Rio de Janeiro em outubro de 2023, o apoio ao reconhecimento da Palestina e à decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) de emitir um mandado de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em 2024.

Em defesa do presidente Lula, o grupo o definiu como um defensor da “justiça, da democracia, da humanidade e da paz”. No entanto, o governo mantém proximidade com figuras e organizações cujas posições são vistas como contraditórias a esses princípios, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que classificou os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023 como “brava resistência”. O governo também manteve relações com o militante comunista Sayid Tenório, que teria feito comentários desrespeitosos sobre uma vítima do Hamas.

Em janeiro do ano passado, José Genoino, um dos fundadores do PT, defendeu o “boicote à empresa de judeus”, gerando uma determinação judicial para a retirada do vídeo. Genoino foi posteriormente defendido por Lula, que em agosto do ano passado sugeriu seu retorno à direção nacional do PT. Em situações como essas, a associação judaica de esquerda, segundo observadores, tem evitado se pronunciar.

Katz alerta para a “cegueira ideológica” diante de discursos e condutas hostis à comunidade judaica. Ela ressalta que é esperado de qualquer judeu a capacidade de reconhecer o antissemitismo, condenar o terrorismo do Hamas, honrar a memória do Holocausto e, ao mesmo tempo, analisar criticamente as ações do governo israelense e a situação dos palestinos. “Coerência não é defender sempre o mesmo lado. É aplicar os mesmos princípios mesmo quando isso é desconfortável para o lado que você apoia”, afirma.

Defesa de Lula em meio a críticas

Mesmo evitando comentar as declarações polêmicas de Lula, o Judias e Judeus pela Democracia-SP tem defendido o presidente diante de acusações de antissemitismo. Em outubro do ano passado, o grupo contestou críticas divulgadas por jornais brasileiros, segundo as quais Lula não teria recebido sobreviventes e familiares de vítimas brasileiras dos ataques do Hamas, teria se recusado a classificar o grupo como terrorista e permanecido inerte diante do avanço do antissemitismo.

A StandWithUs Brasil, entidade de educação sobre Israel, publicou em veículos como Folha de São Paulo, Estadão e O Globo uma advertência ao governo brasileiro, apontando a falta de diálogo de Lula com a comunidade judaica e o aumento do antissemitismo. Em resposta, o coletivo de esquerda alegou que as acusações teriam o objetivo de “espalhar notícias falsas, fragmentar o debate e atacar o presidente Lula, de olho nas eleições de 2026”.

Apoios anteriores a candidatos de esquerda

O apoio de coletivos judaicos de esquerda a Lula não é um fenômeno recente. Em 2018, o grupo Judeus Pela Democracia (distinto do JJPD-SP) apoiou Fernando Haddad na eleição presidencial. Em 2022, a associação também apoiou Lula, mas, durante o mandato, reconheceu suas “falas absurdas”, especialmente após a comparação das ações do exército de Israel em Gaza com o Holocausto.

O Judias e Judeus pela Democracia-SP continua ativo no apoio a candidatos de esquerda, tendo declarado voto em Guilherme Boulos (Psol-SP) para a prefeitura de São Paulo em 2024. O apoio a candidatos do Psol é contestado por lideranças da comunidade judaica devido a posições de quadros do partido que defendem o Hamas como “legítima resistência”.

O rabino Micha Gamerman e Juliana Katz apontam que candidatos de esquerda podem se beneficiar do apoio de grupos judaicos para fins eleitorais, buscando demonstrar que não são antissemitas. No entanto, Katz alerta que a existência de judeus entre os apoiadores de um partido não elimina a necessidade de analisar criticamente suas posições. “Nenhum partido, de qualquer lado do espectro político, pode usar o fato de ter judeus entre seus apoiadores — sejam um ou cem mil — como uma espécie de salvo-conduto para discursos antissemitas, ofensivos ou que deslegitimem o direito do Estado judeu de existir”, conclui.

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