A divulgação dos diários de Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos EUA, pelo senador americano Rand Paul, oferece uma nova perspectiva sobre as decisões tomadas durante a pandemia de Covid-19. Os registros, que abrangem o período de 2020 a 2022, sugerem que muitas das políticas que impactaram profundamente a liberdade individual, a educação e a economia foram implementadas em um cenário de grande incerteza, com dúvidas que não eram plenamente comunicadas ao público.

Liberdades individuais em xeque

Desde o início da pandemia, com o avanço de bloqueios e restrições de circulação, o debate público frequentemente se polarizou entre a confiança na ciência e a acusação de negacionismo. Os diários de Fauci, porém, apontam para uma realidade mais matizada. Em 29 de março de 2020, por exemplo, em um momento em que governadores brasileiros começavam a impor bloqueios, editoriais alertavam para o risco de certas ações ultrapassarem um limite perigoso em relação aos direitos individuais, questionando a restrição de liberdades básicas sem critérios claros. Em 24 de maio de 2020, a discussão se aprofundou, argumentando que medidas emergenciais não se tornam automaticamente legítimas e devem obedecer ao princípio da proporcionalidade.

Um registro de Fauci de 8 de fevereiro de 2020, nas primeiras semanas da crise, revela uma conversa com Tom Frieden, ex-diretor do CDC. Ambos avaliaram que o vírus se comportava, em termos de transmissibilidade, como uma “gripe ruim”, e Fauci estimou que a taxa real de letalidade poderia variar entre 0,2% e 0,3%, considerando a subnotificação. Essa estimativa contrasta com os dados iniciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indicavam cerca de 2% de casos fatais entre os reportados. O registro sugere que, antes dos fechamentos generalizados, uma autoridade sanitária já considerava uma letalidade real substancialmente menor que as taxas divulgadas.

O impacto nas escolas

Outro ponto sensível abordado pelos diários é o fechamento das escolas. Em 15 de março de 2020, Fauci anotou ter convencido o então prefeito de Nova York, Bill de Blasio, a fechar as escolas da cidade, considerando uma interrupção de 30 dias inadequada e alertando para um possível “desastre” em caso de saída prematura das medidas de mitigação. Registros indicam que Fauci pode ter influenciado outras autoridades estaduais e municipais na época.

Em julho de 2020, o debate internacional sobre a duração dos fechamentos escolares e seus custos já era pauta, questionando o custo-benefício da medida. Editoriais argumentavam que a manutenção das escolas fechadas, enquanto outras atividades já funcionavam, demonstrava uma falha em reconhecer a educação como atividade essencial. Estimativas do Banco Mundial indicavam que o fechamento prolongado poderia aumentar a parcela de estudantes sem condições adequadas de leitura e elevar a evasão escolar. Levantamentos, como um da Reuters de março de 2021, reportaram um aumento significativo de estresse mental entre estudantes americanos durante o período de escolas fechadas. A decisão de manter as escolas abertas, embora complexa, deveria ter sido submetida a uma análise de custo-benefício proporcional à sua dimensão, algo que os diários de Fauci dificultam sustentar como uma consequência direta de uma ciência já consolidada.

Lockdowns e os estados de exceção

Os diários revelam que Fauci não era apenas um observador científico, mas um conselheiro direto de governadores, prefeitos e autoridades de saúde, com participação ativa na defesa de medidas de fechamento. Em novembro de 2020, ele registrou ter apoiado o pedido de uma autoridade de saúde de Los Angeles para um novo fechamento de três semanas. Embora Fauci não seja o único responsável pelos lockdowns, esses registros desconstroem a narrativa de que as restrições eram uma tradução neutra da ciência, expondo a existência de escolhas, aconselhamento e defesa de estratégias específicas, bem como discordâncias sobre elas.

A legalidade de medidas como os “toques de recolher” também foi questionada. Em março de 2021, foi levantada a discussão sobre a base legal dessas restrições, lembrando que a Constituição estabelece regras específicas para limitações extremas à liberdade de locomoção. A questão era se decretos estaduais e municipais poderiam criar, por conta própria, uma espécie de estado de exceção.

Vacinação e restrições civis

Em relação à vacinação, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a imunização compulsória, em dezembro de 2020, foi analisada, distinguindo que o Supremo não determinou a vacinação de todos, mas reconheceu a possibilidade de vacinação obrigatória acompanhada de “restrições civis”. Em novembro do mesmo ano, já se alertava para o perigo de transformar a decisão individual de vacinação em um sistema de punição civil, questionando propostas que poderiam impedir não vacinados de obter documentos ou empréstimos. A preocupação era que medidas sanitárias arbitrárias pudessem criar categorias de cidadãos com direitos limitados.

Os diários de Fauci também indicam que ele minimizou riscos de efeitos colaterais de vacinas, classificando como “absurda” a alegação de que vacinas de mRNA causariam mais trombose que outras opções, apesar de reconhecer preocupações com miocardite em homens jovens. Uma reportagem de novembro de 2021 destacou resultados de pesquisa do Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências em Washington, mostrando reações adversas em vacinas tidas como seguras. O debate sobre os efeitos colaterais das vacinas, que antes era uma preocupação de uma elite, passou a ser estereotipado, com “antivax” sendo associados a grupos específicos.

Em outubro de 2021, o uso do passaporte vacinal foi criticado como uma imposição desnecessária, argumentando que vacinados ainda podiam transmitir o vírus, o que tornava problemática a ideia de tratar o não vacinado como uma ameaça. A obrigatoriedade do comprovante, quando a vacinação já era amplamente aceita, passou a ser vista como coerção indireta. Em dezembro de 2021, a decisão do STF que exigiu o comprovante de vacinação para entrada de viajantes no Brasil foi questionada, reforçando que fazer da vacinação uma condição para acessar serviços criava, novamente, cidadãos de segunda classe. Os documentos de Fauci reforçam a necessidade de recolocar a questão da proporcionalidade, questionando a legitimidade de mecanismos de coerção social ampliados quando objetivos sanitários poderiam ser atingidos por meios menos restritivos.

Máscaras e a origem do vírus

As recomendações sobre máscaras também evoluíram, e os diários de Fauci apontam para um intenso debate dentro do governo americano sobre a comunicação dessas diretrizes. Isso revela um cenário de conhecimento em evolução, não um consenso científico imutável desde o início.

A questão da origem do vírus também foi tratada como tabu. Documentos e discussões em torno de Fauci indicam que a hipótese de um acidente de laboratório não era apenas uma fantasia. O próprio governo americano investigou a origem do vírus, e registros anteriores já mostravam cientistas ligados a Fauci discutindo privadamente a possibilidade de um vazamento laboratorial. O senador Paul sustenta que documentos do início da pandemia revelam preocupações privadas de Fauci sobre pesquisas em Wuhan. Embora isso não prove a origem laboratorial, mostra como foi inadequado transformar essa hipótese plausível em tabu. Em novembro de 2020, foi explicado que seria inadequado descartar uma possível origem laboratorial do vírus, argumentando que se a possibilidade era digna de discussão privada entre cientistas, deveria ser digna de investigação pública.

Tratamento precoce

O tratamento precoce foi outro tabu. Em junho de 2021, foi argumentado que a busca por intervenções fora do ambiente hospitalar para alguns pacientes não deveria ser tratada como pseudociência pela ausência de evidências completas. A defesa era que médicos tivessem liberdade para buscar alternativas diante de uma doença nova, enquanto estudos clínicos avaliavam a eficácia. A simples ideia de buscar e testar possíveis tratamentos precoces se tornou sinônimo de negacionismo. Os diários de Fauci mostram que ele confrontou diretamente o presidente Trump sobre a hidroxicloroquina, classificando dados que mostravam o medicamento como potencial tratamento precoce como “anedotas” e os defensores de seu uso “off label” como “psicopatas” e “delirantes”.

A importância da fiscalização da ciência

A cobertura da pandemia ressaltou a importância de preservar a proporcionalidade, a liberdade individual e o Estado de Direito. Em um ambiente de incerteza, como revelam os diários de Fauci, as dúvidas deveriam ter sido explicitadas, os custos de medidas como o fechamento das escolas contabilizados, a influência de autoridades tornada pública, e os efeitos colaterais graves de políticas, revistos.

Os diários de Fauci não absolvem críticos nem condenam autoridades, mas tornam visível a distância entre o complexo mundo das decisões reais e a versão simplificada que chegava ao cidadão comum. A questão central que emerge é: quando o Estado age “pela ciência”, quem fiscaliza a ciência que o orienta? Uma pergunta que, em 2020, parecia inconveniente, mas que, após a divulgação desses documentos, se mostra indispensável.

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