Tráfico árabe-muçulmano de escravos: um genocídio velado na história africana
Livro de Tidiane N’Diaye revela detalhes sobre o tráfico árabe-muçulmano de africanos, que durou 13 séculos e escravizou milhões.
Sumário do artigo
A editora Massari publicou na Itália o livro “O Genocídio Velado: Investigação Histórica”, do antropólogo senegalês Tidiane N’Diaye (falecido em outubro passado), que aborda o tráfico árabe-muçulmano de africanos. A obra, originalmente lançada em 2008, agora está disponível para o público italiano e detalha um período histórico que, segundo o autor, foi amplamente silenciado.
Uma história de 13 séculos
O tráfico árabe-muçulmano de escravos africanos, conforme descrito por N’Diaye, estendeu-se do século VII ao século XX, sem interrupções. Estima-se que entre 12 e 18 milhões de pessoas foram escravizadas e deportadas nesse período. O comércio utilizava duas principais rotas: uma terrestre, transsaariana, que levava pessoas da África Central e Ocidental para o Norte da África; e uma marítima, que partia das costas do Oceano Índico em direção ao Oriente Médio, Pérsia e Índia.
Esse processo foi impulsionado pela colonização árabe-muçulmana do continente africano, iniciada após a morte do profeta Maomé, em 632.
Comparação com o tráfico transatlântico
Existe uma percepção comum de que a única colonização da África foi a europeia e que a única deportação de africanos escravizados a ser amplamente reconhecida é a transatlântica. Esta última transportou cerca de 12 milhões de africanos para as Américas entre os séculos XVI e XIX.
As Nações Unidas, em 2007, instituíram o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, celebrado em 25 de março. Em 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução, apresentada pelo Gana, que reconheceu o tráfico transatlântico como “o mais grave crime contra a humanidade”. O presidente de Gana, John Mahama, declarou que a resolução visa salvaguardar a memória das vítimas e combater as cicatrizes da escravidão, incluindo a discriminação racial. A ONU exorta os países responsáveis a admitirem suas culpas, apresentarem desculpas formais, concederem reparações financeiras, restituírem artefatos roubados e garantirem que tais ações não se repitam.
Contudo, o livro de N’Diaye aponta que nenhum gesto semelhante foi feito em relação ao tráfico árabe-muçulmano de africanos, seja para honrar a memória das vítimas ou para responsabilizar os culpados. A data de 25 de março não faz menção a ele, e nem mesmo o Dia Internacional para a Lembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição, em 23 de agosto, que foi promovido pela UNESCO em 1997 para focar na tragédia do tráfico transatlântico. A escolha de 23 de agosto remete à revolta de escravos em São Domingos, em 1791, crucial para a abolição do tráfico transatlântico.
A perspectiva de Tidiane N’Diaye
No prefácio de sua obra, N’Diaye afirma que “foram 13 séculos ininterruptos em que os árabes saquearam a África subsaariana. A maioria dos milhões de pessoas que deportaram desapareceu devido aos tratamentos desumanos, aos quais se somou a prática da castração”. Ele argumenta que o tráfico escravagista árabe-muçulmano e as jihads (guerras santas) foram “muito mais devastadores do que o tráfico transatlântico” para a África negra, embora “não existam graus no horror nem monopólio da crueldade”.
Os nove capítulos do livro detalham a conquista árabe da África, a islamização dos territórios e como o Islã transformou formas de servidão pré-existentes. O apêndice da obra reproduz versículos do Alcorão que, segundo o autor, incentivam a escravização de não muçulmanos por muçulmanos.
N’Diaye também discute o que ele chama de “extinção étnica mediante castração em massa”. Ele sustenta que as deportações não visavam apenas o lucro pela mão de obra, mas também impedir a reprodução de africanos em terras árabe-muçulmanas, baseando-se na crença de historiadores como Ibn Khaldun, que descrevia a “humanidade” dos negros como “próxima do estágio animal”.
O livro conclui que o apagamento desse tráfico por estudiosos e intelectuais árabe-muçulmanos pode ser uma “síndrome de Estocolmo” por “solidariedade religiosa”, mas questiona as “amnésias seletivas” de estudiosos ocidentais sobre o tema.
Conteúdo baseado em informações de La Nuova Bussola Quotidiana.
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